quinta-feira, 31 de maio de 2018

VOOS

Vou ao aeroporto
minha alegria é igual a dos paulistas
vou sozinho, eles vão com a família inteira,
todo domingo e todo feriado
o movimento incessante é a nossa diversão.
Minha diferença, sozinho,
horas e horas
só quero ver os voos que decolam para Portugal e Canadá.
Aquela aves imensas, ruidosas, gigantescas
só conhecem como eu
o caminho de ir

jamais o de voltar.

terça-feira, 29 de maio de 2018

INÚTIL ESPERA

Não tem jeito
morro a cada instante
quando leio os poemas do Drummond
do Bandeira
e do Quintana então...
Morro de paixão quando mergulho nos teus olhos
azuis salgados do mar
me afogo nas tuas lágrimas
águas salobras da imensidão.
Não tem jeito
me mata a mágoa e o esquecimento
quando escuto Mozart, Brahms e Offenbach
que gostavas tanto.
Não tem jeito
assim mesmo
morro da espera

de quem nunca vai chegar.

PERGUNTAS INÚTEIS

Onde estavas com a cabeça
quando me deixastes ?
Não pensastes naquela hora
o frio que fazia na Dinamarca ?
Não pensastes, amada, um instante sequer
que eu morreria dia a dia

como se vivo estivesse ainda ? 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

MAGIA

Com a amargueza do tempo
que a cada dia se apressa mais
aprendi que tudo passa
se transforma, muda de cor,
tudo esmaece, tudo expira
sem ressentimentos.
Acontece que em mim, sem que eu quisesse
se fez magia de renascer guri
que joga bolita no meio da rua
solta pião, pandorga ou papagaio.
Hoje sou moleque que brinca na calçada
de faz de conta
e conta estrelas no céu
pra ver se tem mais uma

do amigo que morreu de repente.

INVENTOR DE PALAVRAS

Como fazem os poetas verdadeiros
também eu invento palavras
na hora amanhecente
na hora crepuscular, anoitecente,
lembro ainda mais de ti
me curvo de joelhos
eu, teu escravo, cativo
dessedente
imploro de ti

amor e uma gota d'água.

sábado, 26 de maio de 2018

ESTA TUA BOCA

Esta tua boca
vermelha
sem batom nenhum.
Esta tua boca sem cosmético
colorida
séria, cerrada, inalcançável

 ou aberta, como surpresa num sorriso largo
de criança sem maldade alguma.
Esta tua boca que me diz coisas malucas
só pra me fazer sorrir
e que me enfeitiça quando penso na morte.
Esta tua boca tantas vezes silenciosa
guarda segredos do universo

que só conheço quando sonho. 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

LEMBRO DE TUDO

Me lembro

do azul-marinho dos teus olhos claros
da tua boca vermelha
como flor.
Me lembro muito bem
dos teus cabelos pretos
e longos sobre tuas espáduas
me lembro é claro
do teu corpo inteiro e das curvas da tua cintura nórdica.


O que não consigo lembrar, maldita memória,
e o que importa agora ?
se eu (louco que fui) te deixei

ou se tu (ingrata) me deixastes . 

ESTRELAS

Tu és meu universo,

meu mundo
(sei que há outros mundos, outros universos
talvez mais belos, mais tranquilos)
mas o meu mundo começa aqui mesmo

onde pisas devagar
sem começo, nem fim,
te olho, te venero minha divindade,

te olho como olho estrelas no firmamento

que na hora em que te percebo, talvez não existas mais. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

INDIFERENÇA

Silêncio absoluto
a gente tem razão
isto é bom
nenhum telefonema
email nenhum
mensagem alguma de WhatsApp
nenhum convite
nenhum ramo de flores
ninguém me diz bom dia
não fala ninguém comigo
isto é muito bom
ninguém acha que o quase poema não presta
muito menos ninguém mente que é razoável.


Morri sem culpar ninguém

e ninguém mandou flores
ninguém soltou fogos
foi tudo perfeito. Morri em paz.


Não fiquei triste, nem alegre.

HOJE É ASSIM

Hoje é assim
falo baixinho
caminho devagarinho
olho pro chão pra não cair
só enxergo as coisas que estão perto
apanho as coisas que estão ao alcance das mãos

escrevo lento e repito mil vezes a mesma frase

tudo com extrema lentidão
para não acordar os amigos queridos que já morreram

e cansaram de esperar por mim.

domingo, 20 de maio de 2018

ILUSÕES

Bobagem eu esconder
não sou poeta
mas guardo ilusão de um dia escrever coisas assim bonitas.


Não sou poeta
não sou Quintana a escrever coisas como
"Amar é mudar a alma de casa"



Sou humilde senhor

a buscar palavras sem sentido

passarinho sem nome a catar na praça restos de comida.

sábado, 19 de maio de 2018

PERPLEXIDADE




Mil palavras escritas todo o dia
mil orações por minuto louvam a Deus
(como se Ele precisasse disto)

o rei dos reis (eles ainda mantêm a monarquia)
o onipotente, onisciente, onipresente
aquele que não teve passado e existiu sempre
o sábio dos sábios
princípio e fim de todas as coisas.


Confesso que não me preocupa muito acreditar em Deus
o que me angustia e confunde
é a certeza que tenho que Ele não acredita em mim.

DELAÇÃO PREMIADA

Entendo que nos olhem com redobrada desconfiança
Por isso desculpo que nos coloquem em preventivas
que nos ponham tornozeleiras, que controlem nossos passos
nos condenem ao isolamento.
Entendo que as pessoas prefiram ler coisas de gente normal.
Confesso em premiada delação a culpa que carrego :

me encanta sempre um corpo de mulher
seu sorriso, seu olhar enigmático
sou cativo permanente
da malícia e da ternura
sou escravo de tudo que não compreendo

no coração de uma mulher. 

DEFINIçÃO

Queria muito
definir-me
e definir-te.
Perder a ambiguidade
e a incerteza covarde
que me devora inteiro.


Já sei !... e é tão simples e corriqueiro
tu és o pão saído quentinho do forno
das entranhas da terra natal
nossa terra infeliz


e eu esta fome ancestral que me consome !           

DESENCANTO

Por favor,
repare no meu jeito desigual
Repare no meu olhar perdido
ondulante e vago
repare no meu silêncio
soturno e sepulcral
repare no jeito que sorrio
sem graça.
Perdoe
eu não era assim quando partiste

sem dizer adeus.

QUANDO PARTISTE

quinta-feira, 17 de maio de 2018

SEI LÁ

Amo a terra em que nasci
a terra em que fui guri
também a terra em que vou morrer.
Sem mágoas
ressentimentos, malquereres,
sem resmungos, rezingas, inúteis queixas.
Ouvindo Madredeus em Portugal,
baixinho, sussurrante,
a canção derradeira que ouvimos juntos
só nós dois,
eu e tu
tu e eu
 e que agora vai trazer de volta o que perdi
ou me esqueci sei lá porquê.
Sei lá onde estás

sei lá onde me perdi.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O POETA É UM FINGIDOR

Não sou poeta

(quem me dera)
"o poeta é um fingidor"
Mas eu finjo sempre
finjo que não choro
que não sofro
quando as mulheres que amei foram embora
o mundo desabou sobre mim
fingi que não senti nada
limpei a poeira e segui adiante
pedaços de mim
fingi que ia inteiro.
Também quando me deixaste
fingi que estava acostumado
beijei teu rosto, levemente a tua boca,
dinamarquesa dos olhos azuis
(Daí em diante vi azul em tudo)
bebi tuas lágrimas
e ainda hoje sinto a acidez do teu pranto

quando choro é tu que choras. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

FESTA DE ANIVERSÁRIO

Filho único
não tive irmão pra querer bem
e, principalmente,
não tive irmão para brigar
quebrar o braço e a cabeça arrebentar.
É feio confessar
mas tenho inveja destas festas de grandes famílias
me escondo, não sei me comportar.
Um dia, já velho, meu filho fez um jantar
a casa enfeitada com balões coloridos pendurados no teto
e comida, música e bebida farta.
Sobrou de tudo do pouco que eu como
do nada que eu bebo
sobrou tudo
sobrou, principalmente, saudade

que dói demais.

FERNANDO PESSOA

" O poeta é um fingidor
finge tão completamente
qua chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente ".


Não sou poeta (todos sabem)
sou apenas um fingidor
Finjo tão descaradamente
que chego a chorar
amores que não tive.
Finjo tão bem
que mesmo eu acredito

que te amei e te perdi. 

FELIZ

Vou cantar
dançar um tango argentino
tocar flauta  na orquestra sinfônica
bailar clássico no Municipal
visitar o jardim botânico
vou ao Corcovado tirar selfies
vou brincar com o macaco no zoológico.


Tudo mentira e falsidade.
Vou ficar escondido em casa, sozinho,
sem dizer palavra. Tudo lorota
para que a gente pense que estou feliz.


Feliz porque é a obrigação das gentes,

nesta época de Natal e chegada do ano novo.
Com mentiras novas
para continuar vivendo

os poucos meses que me sobram.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

FAZ DE CONTA

Vou cantar
dançar um tango argentino
tocar flauta  na orquestra sinfônica
bailar clássico no Municipal
visitar o jardim botânico
vou ao Corcovado tirar selfies
vou brincar com o macaco no zoológico.


Tudo mentira e falsidade.
Vou ficar escondido em casa, sozinho,
sem dizer palavra. Tudo lorota
para que a gente pense que estou feliz.


Feliz porque é a obrigação das gentes,

nesta época de Natal e chegada do ano novo.
Com mentiras novas
para continuar vivendo

os poucos meses que me sobram. 

domingo, 13 de maio de 2018

FAZ DE CONTA

As crianças não brincam mais de faz de conta
o mundo é que brinca conosco, os adultos, de faz de conta.
Faz de conta que somos felizes
e sorrimos de tudo
faz de conta que amanhã faz sol e vai dar praia

faz de conta que o amanhã não existe
e viveremos assim para sempre

de mãos dadas. 

ADEUS

Eu disse tímido
envergonhado

eu disse Adeus !
E nem fui

e nem voltei !
Adeus
Saudade
Querer bem
Levar-me pelas tuas mãos
Para o nada
Serenamente


Adeus ! 

quinta-feira, 10 de maio de 2018

FACÚNDIA

Não sei se isto ocorre com vocês.
Tenho uma sedução maluca por palavras.
Não deixo passar uma que eu não conheça o significado.
Vou ao dicionário e anoto com um pequeno sinal a lápis
o significado que eu não conhecia
ou que havia esquecido.
Sei que isto é maluquice, mas não tem jeito.
Tem palavras com dois ou três riscos
que são as vezes que eu procurei o sentido.
Há uma palavra com cinco ou seis anotações : facúndia
que não memorizo de jeito nenhum o que quer dizer.



Tem outra que eu desisti de procurar  o seu não sentido :

AMOR !.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

DRUMOND E PESSOA

Estou quase cego
quase mudo, não falo com ninguém
sou surdo como a pedra do Drummond

não ouço bem
(verdade, ouço Brahms e Corelli para agradar minha gatinha vira-lata)
quase não como, não tenho fome, caminho com dificuldade imensa,
ando na quadra
e volto cansado em seguida para o que chamo minha casa.




Não se enganem : não sou triste.
"Hodido, pero contento", repetia meu amigo uruguaio.
Sou um fingidor como o poeta de Pessoa

rio, debocho, gargalho
igual fazem

os que se riem de mim. 

DO MEU JEITO

Não sonhei ser grande
não, não fui órfão,
tive mãe e pai que duraram o tempo que duram os pais normais.
Não sorri
nem chorei além da conta.
Aturei sem reclamar
as dores que me couberam
as traições e ingratidão
sofri tortura sem delatar

Sou do jeito que me deixaram ser
nem inútil, nem insólito
quieto quando me exigiram quietude
e insubmisso quando me obrigaram.


Quis ser assim mesmo
pequenininho

pra caber na palma da tua mão.

terça-feira, 1 de maio de 2018

(Sei duas ou três coisas)
mentira, sei nada
não amo a vida
suporto a vida
a tudo queria ser indiferente
mentira
tudo me afeta, me sangra, me comove.


(A dor que sinto
é a mesma dos meus irmãos
e isto não a faz menor
nem por isso a faz ninharia
fenece, se desfaz no ar).


Sangrar, pungir, dilacerar
me esgoto em fingimento
dissimulo, invento, fantasio
arremedo, aparento, plagio

para parecer
e me suportar de pé.