quinta-feira, 27 de setembro de 2018

NO CAMINHO DO MAR



A CAMINHO DO MAR


A encontrei a caminho do mar

vestida de branco

os pés nus

molhados


carregados de areia.

Andava como se carregasse um fardo,

mas não era triste.

Reparei nos nos seus grande olhos azuis

um azul de mar da Dinamarca.


Tentei falar com ela

me olhou indiferente, quase zombeteira,

etérea, impalpável

como se fosse um anjo.




Era um anjo. Sumiu.

VOU-ME EMBORA!!

Vou-me embora !


antes confesso

(faço minha delação premiada)

digo o que todo mundo sabe

o chefe da quadrilha eu sei quem é.

Aquele que roubou bilhões da educação

da saúde, da segurança do nosso povo eu sei quem é.




Aproveito também, uma vez que vou-me embora

confesso que chorei (homem não chora)

chorei quando partiste e fiquei sem chão, sem teto,

sem amigo que me levantasse.




Pasárgada não me quis

vou-me embora pra Portugal

Sou amigo do Bandeira, lá dormirei na cama que eu escolherei.

domingo, 23 de setembro de 2018

SIMPLES ASSIM

Li uma uma vez

não lembro onde

que toda gente, mesmo sem ser poeta,

deve escrever poesia.

É o que faço agora

(cumpro minha obrigação)

escrevo um poema como quem diz adeus

(sem drama, nem remorsos)

para a amante, amiga, mulher amada


e confesso envergonhado : te amo, simplesmente.





E a eternidade inteira cabe neste verso.

FUI, VOLTEI

Fui, voltei

voltei e fui sem bússola e destino

me perdi não sei onde

andei por mares ignotos, 

fui eu, foi ninguém

cruzei revoltos mares, rios desconhecidos

fui, voltei

me perguntando sem resposta

como cheguei aqui ?

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

FINGIMENTO

O que escrevo, tão pobre,

é só às brinca

minto com sinceridade

sou sincero até quando minto

pra me divertir.

Mesmo a dor que sinto é mentirinha

o amor que experimento de verdade já morreu faz tempo

de falência múltipla.

Escolho as palavras que me entendem

não aproveito qualquer palavra distraída que me escolha.

Sou mago às vezes,

alguém que deu corda no cansado coração.




Meu brinquedo é ressuscitar amores mortos

que fingem bater dentro do peito.

SAUDADES DE MIM


Chorei

com saudades de mim
das caminhadas que fiz
dos rios e mares que naveguei
chorei quando vi os fiordes da Noruega
confesso que chorei
do tempo que passou
chorei quando foste embora
do que fiz
e do que não fiz também


chorei dos beijos que não te dei
chorei com saudades de mim
que me perdi
não sei onde. 















-- 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

TUA ESPERANÇA

Quero ser teu bolo e vela

neste teu dia de aniversário

quero ser teu poema do Quintana

para te perturbar.

Teu silêncio para te ensurdecer

quero ser palavra sussurrada

para encantar teus dias

e beijos quentes para queimar teus lábios.

Quero ser a dúvida

para vacilar tua fé

quero ser o bálsamo para aliviar a dor

quero ser sorriso e lágrima também.

Quero ser o canto do passarinho que te desperte de manhã

e também tua esperança

para te fazer eterna.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

TUDO É SEM SENTIDO

Eu não queria te dizer

porque tudo é sem sentido

palavras não são mais para esclarecer e elucidar

são feitas para ofuscar e obscurecer.

Eu não queria te dizer porque um dia me roubaram as palavras

enquanto eu dormia.

Eu não queria te dizer que te amo

porque é tarde, muito tarde

para alguém entender que isto guarda todo o sentido da vida

e é isto o milagre maior que faz rodar o mundo.

Eu não queria te dizer

porque falo mais alto quando silencio.

QUERIA SER

Queria muito

recomeçar

e ser alguém que ninguém soubesse

queria ser escondido um Quintana redivivo

nascer em Alegrete

e virar gente do mundo.

Alguém que escrevesse

um verso lindo

de um jeito que todos entendessem.

Dizer que te amo em todos os idiomas

e toda gente compreendesse

Queria ser pássaro

flor, planta, rio

queria ser magia, encantamento

queria ser apenas silêncio e beleza

para morar na tua boca

uma vida inteira.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

MINHA PÁTRIA

Minha pátria é onde vivo

onde piso desconfiado

caminho sem destino

minha pátria é ontem

é o hoje vacilante

minha pátria é sem futuro

pela qual morro

soldado desarmado

caminho descalço

pés sangrentos

sem saber destino

minha pátria adorada sem pendão

e hino nacional

minha pátria é solidão

onde vivo desesperado

pensando em ti.

domingo, 16 de setembro de 2018

OS LOUCOS VÃO PARA O CÉU

Cada cidade do interior

tem seu louco de estimação.

Ele não é perigoso, não ataca ninguém,

é louco simplesmente.

Em Caxias do Sul, onde morei na infância, havia um maluco assim.

Passava os dias correndo pelas ruas da cidade,

levando entre as mãos uma roda como se dirigisse um carro.

Tenho certeza que a estas horas, Carlitos (era o nome dele)

participa da Fórmula 1 do céu.

Os arcanjos Miguel, Gabriel,Uriel e Rafael

sem mensagens pra trazer à terra (com o advento do whatsApp)

lhe  dão a bandeirada final

para mais uma vitória das nossas cores.

NO ENTRETEMPO

Hoje acordei

com a sensação esquisita

que eu procurava por instantes

meu pai, minha mãe

minha mulher (qual delas ?)

minhas filhas, meu filho querido.




Coisa estranha no entretempo


quando mortos e vivos se misturam

convivem

parecem se dar bem

ninguém gargalha, debocha e ri um do outro.




e todos se dão bem, obrigado. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O TREM

Disto é feita a vida

mudanças

partidas e chegadas

mais partidas que chegadas

já fui pobre, já fui rico

(foi muito melhor ser rico).

Partidas, muitas vezes, doem muito

mas o tempo, este esquecido,

faz a gente não lembrar.




O trem que chega é o mesmo que parte.

O meu, resfolegante, apita na curva

um assovio familiar, amigo,

meu trem andarilho

que vai me levar a lugar nenhum.

INCOERÊNCIA DE NÓS DOIS

Deliro

me desvairo

me alucino

me endoideço.

Até que seguro tuas mãos, olho nos teus olhos

e percebo que o mundo


é doce

e que a vida

gemido e alívio ao mesmo tempo

não é tão má assim

e pode ter jeito pra nós dois.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

VERSINHO

Neste versinho

pequenininho

de poucas palavras como um adeus

imagino pra mim mesmo

segredo para nós dois

que se eu fosse

como eu seria

talvez me amasses mais demorado

e não me esquecesses

assim tão depressa.

O ESPANTO

Eu, que me esqueci de tudo,

ofensas e elogios, me esqueci também de morrer.




Deus sente dor ? Coitadinho dele.


Que dor imensa não deve Deus sofrer

ao ver quanta crueldade se faz em seu nome !...




A pior coisa que me fizeram

foi não me darem um avô

para caminhar com ele no jeito demorado e lento da velhice.




A coisa mais natural que tem é a morte

A vida, esta sim, espanta, e  não tem sentido.

PRETENSÃO

Queria muito recomeçar

ser alguém que ninguém soubesse

ser Quintana redivivo

nascer em Alegrete e virar gente do mundo.

Queria ser alguém para escrever um verso só

com palavras que todos comprendessem

dizer que te amo em dinamarquês

e toda gente entendesse.

Queria ser pássaro

flor, cascata, rio

queria ser milagre, magia,

sortilégio

para atravessar todos os muros

te abraçar e te beijar

e andar contigo de mãos dadas.

Queria ser silêncio, beleza

para morrer na tua boca

uma vida inteira.

DECREPITUDE

Confesso, para os devidos fins,

que estou gagá.

Também isto é muito natural


em alguém que vai chegando aos noventa.

inventei coisas terríveis

de gente próxima a mim

evangélicas e puras como a própria virgem,

mentiras e absurdos que hoje me dão vergonha.

Ouço vozes que gargalham, zombam de mim,

lembrando momentos de gozo inigualável.

Tudo delírio meu,

imaginação enfermiça


decrepitude doentia que não controlo.

Tudo mentira, alucinação.




A única verdade (ninguém acredita)

é a história da dinamarquesa

(muito mais alta que eu, que sou baixinho)

que se apaixonou por mim (a única).

Isto sim aconteceu.




Quando ela voltou pra Europa

sem dizer adeus

eu morri de amores

e nunca mais soube de mim.

POR QUE ME ABANDONASTE ?

Meus escritos vão ficando cada vez menores

mais raquíticos

pequenininhos, franzinos de dar dó,

e qualquer dia desaparecem

sem que ninguém se dê conta

nem uma beata senhora lhes ofereça

a missa inefável de sétimo dia.




e eu direi, me afogando na lama poética,

algo que desconfio alguém já disse por aí

"pai, por que me abandonaste ?"

e será muito tarde e supérfluo ouvir a resposta

que nem Ele ouviu.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

PASSARINHO NA VARANDA

Um passarinho


(que não sei o nome

tenho sempre de perguntar a eles

não guardo nunca o nome dos passarinhos)

pousou na minha varanda improvável de Copacabana

me viu e fugiu em seguida

ele aprendeu que o bicho homem não merece confiança.




Sei que não tem nada a ver

mas me lembrei do Viterbo, um advogado gaúcho,

preso comigo na primeira prisão política em 1964.

Viterbo tinha visão e pressentimento :

quando saiu da prisão se matou dias depois.




Virou passarinho para me alegrar nas manhãs sombrias de Copacabana.

VIRGEM SEM NOME

Tenho uma pena enorme

destas santinhas

virgens a quem ninguém recorre

que prece nenhuma recebem

de cura ou sofrimento de amor.

Virgens sem nome, sem prestígio

sem marketing

por quem pessoa alguma acende velas

e vagam solitárias pelo céu.




Quem sabe marias sem sobrenome, sem altar,

virgens desocupadas,

não encontra uma de vocês

a nórdica que me abandonou sem mais nem menos

e deixou para sempre cravados em mim

aqueles olhos azuis de indiferença e desprezo.

TUDO MORREU EM MIM

Fico pensando

quem aprecia hoje um poema ou a imitação desmaiada  dele

A poesia acabou, está acabando ou vai acabar.

Não há nenhuma pista

sinal nenhum.

Nas livrarias, meia dúzia de livros dos mesmos autores

escondidos no fundo que ninguém vê.

Não há sinal nenhum

nenhuma pista reveladora

nenhum toco de cigarro

para denunciar o DNA.

A poesia acabou em mim

tudo morreu em mim quando partiste.

Quando tive aquela trombose tudo morreu em mim

as escavadeiras da prefeitura levaram o entulho.

Me afundei no abismo do meu cérebro.

Não sobrou nada de mim

verdade que fiquei mais leve

sem dores, fantasmas, culpas

tudo morreu em mim quando partiste.

SOU NADA

Sou esta voz

quase muda

inaudível

sou este sonho

o sonho esquecido quando acordo

sou esta palavra indicível


que te adora

que te adora

e me persegue sem alcançar.




Sou este sonho

que começa nas lonjuras

em que te escondeste de mim.

QUE FIZ EU DE MIM ?

Não guardo rancor

nem ressentimento

convivo bem com o claro e o escuro

negrejar e branquear

é a mesmo coisa sem sentido para mim.

Viajei pouco, mas conheci o essencial do mundo


tive bem poucos amigos

mas os poucos pra mim é multidão.

Adoro o falar baixinho

o sussurro, a surdina, o murmúrio

o falar cochichando me seduz

o que me importa no final das contas

é repetir sempre a mesma pergunta

que fiz eu de mim ?

domingo, 9 de setembro de 2018

ESTE MEU JEITO

Este meu jeito

inescondível

de ser triste

esta vontade de viajar para bem longe

junto estes livros ainda não lidos.

Esta vontade esquisita de gritar

e acordar as gentes para um mundo possível de harmonia.

Meus sonhos mais recônditos

estes ventos soluçantes de setembro

trazem de volta teu retrato

em que ainda reconheço

sinais enigmáticos

de sonho e de esperança.

POEMINHA APRESSADO

Cometi muitos erros, é verdade,

erros banais, alguns,

outros nem tanto

mas que três aves marias, três padres nossos

no meu tempo resolviam o problema.




Será, minha santinha padroeira

que errei mesmo tanto assim

ou nasci no mundo errado ?

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O CÃO E SEU DONO

Dizem que vão me presentear

um cachorro.

Sei muito bem

os cães costumam ser fiéis

o que é uma coisa cada vez mais rara

em nossa vã humanidade :


os cães respeitam seus donos acima de tudo,


não debocham, não gargalham.

Não têm vergonha que o dono esteja gagá

e caminhe na rua como se estivesse bêbado.

Me impõem uma condição :

que eu leve meu cão a passear todas as manhãs.




Veja bem, isto é impossível :

o cão é que vai me levar no passeio matinal.

Já não posso mais.

Se duvidarem, como vão as coisas,

é capaz de eu parar em cada poste

para marcar o lugar da volta.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

PELO MENOS

Eu queria pelo menos

conhecer outra gente de lugares a que não fui

Beijar outro lábios

sentir pelo menos o perfume de outros corpos

pelos menos pegar as mãos que me amparassem

e aceitassem a minha mão vazia

pelo menos  alguém que me chamasse irmão

sem ter comigo distante parentesco


pelo menos olhar fundo dos seus olhos

(azuis, de preferência)

para conhecer os seus segredos

pelo menos alguém que me amparasse

no meu andar claudicante

pelo menos alguém que fingisse sentir a mesma dor que sinto


e chorasse comigo a mesma dor que me consome.

O LONGE NÃO EXISTE

Estou só

irremediavelmente só

sem caminho interditado de onde vim

estou só

sem vontade de voltar.

Quero ir pra longe

e o longe não existe, amada.




E o diabo destes olhos azuis

molhados do mar nórdico

cravados em mim, como uma maldição,

que teimam sorrir se sorrio

e choram sempre quando choro

toda vez com saudades de ti.

NA CONTRAMÃO

Todo avô é um maníaco

todo avô


tem a mania de dar conselho.

Ninguém escuta, ninguém segue

mas importa pouco.

Meu conselho

é que prestem muita atenção :

a vida é uma só

e muito breve.




O tempo que temos para fazer UMA pessoa feliz é fugaz

quando a gente percebe

já passou a chance.




Eu, por exemplo, sou um azarado.

Entrei na vida na contramão.

POETA DA QUADRA

Tenho mania de grandeza, confesso,

almejo ser

por aclamação

(tem o poeta municipal, o estadual e o grandes poetas nacionais)


considerado o poeta da minha quadra

(mesmo que não seja poeta).

Hoje bem cedo

saí para a caminhada domingueira.

Encontrei meu amigo Marquinhos

maluco - beleza

que dirige o trânsito aqui

mandando seguir os ônibus que devem seguir

e parar os que precisam parar

mesmo que os sinais digam uma ou outra coisa.

Divido com Marquinhos, as gentes e os cães

o poder absoluto de mandar nesta rua de Copacabana.

A rua, os ônibus, as gentes existem porque nós deixamos :

o Marquinhos, eu, os cães

e os sonhos também.

domingo, 2 de setembro de 2018

EU QUERIA TANTO

Eu queria tanto

tanto mesmo de verdade

envelhecer contigo.

Que tu amparasses

meu caminhar inseguro

quando ando na quadra da minha rua.

Que tu abrigasses com zelo

minhas tonturas senis

que me dissesses o nome das coisas e das pessoas

que a cada momento esqueço.

Eu queria tanto envelhecer contigo

e lembrar sempre os mesmos versos

e compor contigo sempre o mesmo poema

que repito e esqueço sempre.

Eu queria tanto que ouvisses a mesma história da minha juventude

que não tenho ninguém para escutar

e ninguém para acreditar.




Eu queria tanto.

sábado, 1 de setembro de 2018

AZARADO

"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mateus,5.3).







Azarado, tudo bem,

reconheço meus pecados,

mas pobre de espírito jamais.

No reino dos céus

até que eu topava ir

(chato deve ser aquela cantoria o dia todo), mas jardins floridos e perfumados,

bem cuidados por jardineiros afetuosos, isto me atrai.

Mas pobre de espírito, tô fora.




Toda esta gente que me enganou

me humilhou e gargalhou na minha cara,


sinto dizer que eu sabia de tudo, todos os detalhes macabros

da sua sordidez, eu reconhecia

todos os detalhes.




Explico : arrisquei ser feliz apenas ;

não fui enganado. 

DESPEDIDAS

Louvo todas as despedidas

também aquelas em que chorei

louvo os abraços de nunca mais

e os beijos de separação,

também aqueles que me humilharam

ofenderam e marcaram a fogo minha vida inteira.

Bendigo todas as despedidas

mesmo aquelas que não presenciei

o balançar tímido de mãos

que me deixou inerte

sem saber sorrir ou chorar.

Bendigo a cidade inencontrável

para onde foi (norte da Europa ?)

quem me deixou sem teto, caminho, lugar e jeito

para continuar vivendo,

onde sempre é outono e inverno.

SIMPLESMENTE ISTO

Sou cisco

lasca

fagulha que definha e se apaga

fogueira, labareda, lume,

sombra apagada,

projeto esquecido de um museu, quem sabe,

teatro de mil espetáculos

dança, tragédia, comédia

atirador ensandecido

matando sonhos de gente jovem

que ainda não aprendeu a odiar.

Sou cisco, lixo, detrito, poeira

nenhum deus se preocupa se rio, se choro.

Sou cisma, sonho, fantasia

simplesmente isto.

ÚLTIMAS HOMENAGENS

Podem rir

debochados, zombeteiros, escarnecidos,


gargalhar a bandeiras despregadas.

a hora é de vocês

eu vos respeito.

Riam sem pudor

que a minha hora está chegando.




Vou indo em silêncio, devagar,


me despeço, ouvindo de vocês

as últimas homenagens.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

DISSIMULAÇÃO


(Sei duas ou três coisas)

mentira, sei nada

não amo a vida

suporto a vida

a tudo queria ser indiferente

mentira

tudo me afeta, me sangra, me comove.




(A dor que sinto

é a mesma dos meus irmãos

e isto não a faz menor

nem por isso a faz ninharia

fenece, se desfaz no ar).




Sangrar, pungir, dilacerar

me esgoto em fingimento

dissimulo, invento, fantasio

arremedo, aparento, plagio


para parecer

e me suportar de pé.

VINGANÇA

Tô nem aí !

Tá muito perto : pode ser amanhã ou depois de amanhã.

Pode ser de madrugada ou ao anoitecer.

Sei que está perto.

Eles vão rir e gargalhar de novo.

Vão debochar, escarnecer, zombar

quando eu viajar


e lembrar, com razão, o quanto fui otário e tolo.




Tô nem aí !

Lá, vou rir também.




Lá, como Bandeira,

sou amigo do Rei !

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

HISTÓRIA DA GENTE

Todo mundo tem uma vergonha

eu tenho muitas

muito mais vergonhas do que orgulhos

choro mais do que gargalho

fecho mais os olhos

do que os escancaro de espanto.




Sou mais triste

do que contente

mas se pudesse

inverteria todas as coisas do mundo.




A história da gente

todo mundo sabe

é mais feita de dores


do que de alívios.

SONHOS

Não tive avô

nem tive avó

pra me acalentar

e contar histórias.

Não tive pai, nem mãe

pra me contar lendas

(isto foi bom,

menos uma coisa pra eu deixar pelo caminho).




Também não tive

outras tantas coisas

que os bons meninos têm.

Talvez por isso sou azarado

e vivo sozinho pelos cantos

sem poder chorar

sem ter sonhos bons que toda gente tem.

VISITA

Alguém bate à porta

vou ver  quem é

a estas horas tontas.

É a morte, amigo.

Chegaste afinal, senhora,

te esperava há tanto tempo

em vão.

Não questiono, nem lamento

chegaste na hora precisa em que eu começava a escrever

meu único bonito poema de amor...

Entre, por favor, fique à vontade.

Vou me arrumar

meu único terno já estendido

meu par de sapatos já gastos

que caminhou sozinho pelo mundo

enquanto eu pensava bobagens poéticas.

Senhora, por favor, estou pronto.

Agora, apenas uma pergunta,

se me permite a ousadia,

Por que demoraste tanto ?

terça-feira, 28 de agosto de 2018

MEU MUNDO

MEU MUNDO

Um dia, breve, vou contar a história do mundo,

a minha história,

o meu mundo pobre

sem graça

sem montanhas geladas

cordilheiras mágicas ao amanhecer

sem vulcões ameaçadores, sem tempestades, tsunamis

mundo sem glamour, filme japonês sem legenda.

Eu fugi do mundo

do meu mundo sem aurora boreal

sem sol da meia noite na Noruega,


sem cordilheira dos Andes coberta de neve

sem os dolomitas

sem Veneza, seus barcos e suas canções

sem Paris no bateau mouche pelo Sena.


Na surdina
pé ante pé, sem olhar para trás, eu fugi como um cão
sem dono no mundo. Do meu mundo.

NÃO ME ENTENDES

Sei lá !



a eternidade é tão curta

para tamanho amor

esta maldita distância que nos separa

dez horas em supersônico voo

este teu país nórdico tão decente

e meu país tão pobre

de gente tão ladra e tão ladina

eu grito e não me ouves

choro e não te compadeces



repito a litania

que te amo

que te adoro

e não me entendes

ou fazes de conta que não me entendes.




Sei lá !

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O QUE EU QUERO MESMO

Quero o silêncio

o falar baixinho,quero enfim dizer não sei

abomino o talvez

não quero filosofia

metafísica, transcendências, abstrações


quero não ter palavras

quero a mudez final.





O que eu quero mesmo

nesta hora crepuscular

é  desvelar o amor que tive.

Quero ser o sonho, a tresloucada fantasia




Quero me perder

balão da infância

nas cinzas da fogueira.

DESNECESSIDADES

Aprendi bem cedo

na vida

infância ainda

o jeito de chorar escondido

sem que ninguém notasse.

O capitão Mallhães

na polícia do exército me torturou durante três sessões

e eu não entreguei ninguém.

Não tem mistério, nem heroísmo : aprendi a calar na precisão

desde pequeno.

Calei quando tive amor

e quando me abandonaram

aprendi que tudo é a mesma coisa

ter coisas e desnecessidades.




Aprendi que o gosto do beijo

é o mesmo da pancada

o valor de quem chega

é o mesmo de quem vai embora.

CANÇÃO EM DESESPERO

Cadê minha vida, cadê ?

Cadê o sonho, a fantasia, a utopia

cadê o mundo melhor

e o novo homem, cadê ?

cadê minha Sierra Maestra ?

Cadê meu pai, minha mãe,

minha tia Miloca, tio Gurizão, cadê ?

cadê meus filhos queridos ?

cadê a moça improvável, cadê


que mal falava o português

cadê o espanto, encantamento que a fez chorar na despedida ?

Cadê os brinquedos que não tive

o livro de histórias que ganhei ?

Cadê o verso mais lindo que nunca escrevi

cadê todos vocês que riem de mim, debocham e me desprezam

cadê vocês que me fazem ridículo ?

Cadê vocês, todo mundo

que grito e canto em desespero




Cadê minha vida que roubaram de mim, cadê ?

domingo, 19 de agosto de 2018

O TEMPO PASSOU

Sinto que passou meu tempo

tanto faz hoje que chova

faça escuro como na Finlândia

que caia neve igual na Dinamarca, onde te procurei.




Sozinho, como sempre, olho minha gata

melhor dizer que nos olhamos

e ela entende


que carrego a tristeza do tamanho do mundo.

Ela compreende e se encosta em mim

e a vida parece que começa naquela hora.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

ESTÁ CHEGANDO A HORA

Está chegando a hora

apita o trem na curva da longa estrada

brilha o sol na minha janela

o dia é claro e lindo

não chove

não tem nuvens

tudo é belo e sereno como escolhi.




Não levo mágoas

ressentimentos poucos :

beijos que não te dei

carinhos que me negaste.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

FINGIDOR

Não sou poeta


(quem me dera)

"o poeta é um fingidor"

Mas eu finjo sempre

finjo que não choro

que não sofro

quando as mulheres que amei foram embora

o mundo desabou sobre mim

fingi que não senti nada

limpei a poeira e segui adiante

pedaços de mim

fingi que ia inteiro.

Também quando me deixaste

fingi que estava acostumado

beijei teu rosto, levemente a tua boca,

dinamarquesa dos olhos azuis

(Daí em diante vi azul em tudo)

bebi tuas lágrimas

e ainda hoje sinto a acidez do teu pranto

quando choro és tu que choras.

domingo, 12 de agosto de 2018

CAMINHAR JUNTOS


É uma pena muito grande
que eu tenha tão poucas certezas
tenho certeza que você amaria ver minhas mãos.
De dezembro para cá elas ficaram cheias de rugas
caminhos esquisitos
que não sei onde começam
nem onde terminam.
Você descobriria
tenho certeza que você descobriria
pelo menos teria esta certeza pra chamar de minha.
Você daria nome para estes caminhos
nome de plantas, nome de bichos, nome de estrelas
nome de gente, não.
E riríamos muito disto
que não tem graça nenhuma
porque eu não posso mais caminhar contigo.

De mãos dadas, como caminhamos sempre.