A CAMINHO DO MAR
A encontrei a caminho do mar
vestida de branco
os pés nus
molhados
carregados de areia.
Andava como se carregasse um fardo,
mas não era triste.
Reparei nos nos seus grande olhos azuis
um azul de mar da Dinamarca.
Tentei falar com ela
me olhou indiferente, quase zombeteira,
etérea, impalpável
como se fosse um anjo.
Era um anjo. Sumiu.
Vou-me embora !
antes confesso
(faço minha delação premiada)
digo o que todo mundo sabe
o chefe da quadrilha eu sei quem é.
Aquele que roubou bilhões da educação
da saúde, da segurança do nosso povo eu sei quem é.
Aproveito também, uma vez que vou-me embora
confesso que chorei (homem não chora)
chorei quando partiste e fiquei sem chão, sem teto,
sem amigo que me levantasse.
Pasárgada não me quis
vou-me embora pra Portugal
Sou amigo do Bandeira, lá dormirei na cama que eu escolherei.
Li uma uma vez
não lembro onde
que toda gente, mesmo sem ser poeta,
deve escrever poesia.
É o que faço agora
(cumpro minha obrigação)
escrevo um poema como quem diz adeus
(sem drama, nem remorsos)
para a amante, amiga, mulher amada
e confesso envergonhado : te amo, simplesmente.
E a eternidade inteira cabe neste verso.
Fui, voltei
voltei e fui sem bússola e destino
me perdi não sei onde
andei por mares ignotos,
fui eu, foi ninguém
cruzei revoltos mares, rios desconhecidos
fui, voltei
me perguntando sem resposta
como cheguei aqui ?
O que escrevo, tão pobre,
é só às brinca
minto com sinceridade
sou sincero até quando minto
pra me divertir.
Mesmo a dor que sinto é mentirinha
o amor que experimento de verdade já morreu faz tempo
de falência múltipla.
Escolho as palavras que me entendem
não aproveito qualquer palavra distraída que me escolha.
Sou mago às vezes,
alguém que deu corda no cansado coração.
Meu brinquedo é ressuscitar amores mortos
que fingem bater dentro do peito.
Chorei
com saudades de mim
das caminhadas que fiz
dos rios e mares que naveguei
chorei quando vi os fiordes da Noruega
confesso que chorei
do tempo que passou
chorei quando foste embora
do que fiz
e do que não fiz também
chorei dos beijos que não te dei
chorei com saudades de mim
que me perdi
não sei onde.
--
Quero ser teu bolo e vela
neste teu dia de aniversário
quero ser teu poema do Quintana
para te perturbar.
Teu silêncio para te ensurdecer
quero ser palavra sussurrada
para encantar teus dias
e beijos quentes para queimar teus lábios.
Quero ser a dúvida
para vacilar tua fé
quero ser o bálsamo para aliviar a dor
quero ser sorriso e lágrima também.
Quero ser o canto do passarinho que te desperte de manhã
e também tua esperança
para te fazer eterna.
Eu não queria te dizer
porque tudo é sem sentido
palavras não são mais para esclarecer e
elucidar
são feitas para ofuscar e obscurecer.
Eu não queria te dizer porque um dia me
roubaram as palavras
enquanto eu dormia.
Eu não queria te dizer que te amo
porque é tarde, muito tarde
para alguém entender que isto guarda todo o
sentido da vida
e é isto o milagre maior que faz rodar o
mundo.
Eu não queria te dizer
porque falo mais alto quando silencio.
Queria muito
recomeçar
e ser alguém que ninguém soubesse
queria ser escondido um Quintana redivivo
nascer em Alegrete
e virar gente do mundo.
Alguém que escrevesse
um verso lindo
de um jeito que todos entendessem.
Dizer que te amo em todos os idiomas
e toda gente compreendesse
Queria ser pássaro
flor, planta, rio
queria ser magia, encantamento
queria ser apenas silêncio e beleza
para morar na tua boca
uma vida inteira.
Minha pátria é onde vivo
onde piso desconfiado
caminho sem destino
minha pátria é ontem
é o hoje vacilante
minha pátria é sem futuro
pela qual morro
soldado desarmado
caminho descalço
pés sangrentos
sem saber destino
minha pátria adorada sem pendão
e hino nacional
minha pátria é solidão
onde vivo desesperado
pensando em ti.
Cada cidade do interior
tem seu louco de estimação.
Ele não é perigoso, não ataca ninguém,
é louco simplesmente.
Em Caxias do Sul, onde morei na infância, havia um maluco
assim.
Passava os dias correndo pelas ruas da cidade,
levando entre as mãos uma roda como se dirigisse um carro.
Tenho certeza que a estas horas, Carlitos (era o nome dele)
participa da Fórmula 1 do céu.
Os arcanjos Miguel, Gabriel,Uriel e Rafael
sem mensagens pra trazer à terra (com o advento do whatsApp)
lhe dão a bandeirada final
para mais uma vitória das nossas cores.
Hoje acordei
com a sensação esquisita
que eu procurava por instantes
meu pai, minha mãe
minha mulher (qual delas ?)
minhas filhas, meu filho querido.
Coisa estranha no entretempo
quando mortos e vivos se misturam
convivem
parecem se dar bem
ninguém gargalha, debocha e ri um do outro.
e todos se dão bem, obrigado.
Disto é feita a vida
mudanças
partidas e chegadas
mais partidas que chegadas
já fui pobre, já fui rico
(foi muito melhor ser rico).
Partidas, muitas vezes, doem muito
mas o tempo, este esquecido,
faz a gente não lembrar.
O trem que chega é o mesmo que parte.
O meu, resfolegante, apita na curva
um assovio familiar, amigo,
meu trem andarilho
que vai me levar a lugar nenhum.
Deliro
me desvairo
me alucino
me endoideço.
Até que seguro tuas mãos, olho nos teus olhos
e percebo que o mundo
é doce
e que a vida
gemido e alívio ao mesmo tempo
não é tão má assim
e pode ter jeito pra nós dois.
Neste versinho
pequenininho
de poucas palavras como um adeus
imagino pra mim mesmo
segredo para nós dois
que se eu fosse
como eu seria
talvez me amasses mais demorado
e não me esquecesses
assim tão depressa.
Eu, que me esqueci de tudo,
ofensas e elogios, me esqueci também de morrer.
Deus sente dor ? Coitadinho dele.
Que dor imensa não deve Deus sofrer
ao ver quanta crueldade se faz em seu nome !...
A pior coisa que me fizeram
foi não me darem um avô
para caminhar com ele no jeito demorado e lento da velhice.
A coisa mais natural que tem é a morte
A vida, esta sim, espanta, e não tem sentido.
Queria muito recomeçar
ser alguém que ninguém soubesse
ser Quintana redivivo
nascer em Alegrete e virar gente do mundo.
Queria ser alguém para escrever um verso só
com palavras que todos comprendessem
dizer que te amo em dinamarquês
e toda gente entendesse.
Queria ser pássaro
flor, cascata, rio
queria ser milagre, magia,
sortilégio
para atravessar todos os muros
te abraçar e te beijar
e andar contigo de mãos dadas.
Queria ser silêncio, beleza
para morrer na tua boca
uma vida inteira.
Confesso, para os devidos fins,
que estou gagá.
Também isto é muito natural
em alguém que vai chegando aos noventa.
inventei coisas terríveis
de gente próxima a mim
evangélicas e puras como a própria virgem,
mentiras e absurdos que hoje me dão vergonha.
Ouço vozes que gargalham, zombam de mim,
lembrando momentos de gozo inigualável.
Tudo delírio meu,
imaginação enfermiça
decrepitude doentia que não controlo.
Tudo mentira, alucinação.
A única verdade (ninguém acredita)
é a história da dinamarquesa
(muito mais alta que eu, que sou baixinho)
que se apaixonou por mim (a única).
Isto sim aconteceu.
Quando ela voltou pra Europa
sem dizer adeus
eu morri de amores
e nunca mais soube de mim.
Meus escritos vão ficando cada vez menores
mais raquíticos
pequenininhos, franzinos de dar dó,
e qualquer dia desaparecem
sem que ninguém se dê conta
nem uma beata senhora lhes ofereça
a missa inefável de sétimo dia.
e eu direi, me afogando na lama poética,
algo que desconfio alguém já disse por aí
"pai, por que me abandonaste ?"
e será muito tarde e supérfluo ouvir a resposta
que nem Ele ouviu.
Um passarinho
(que não sei o nome
tenho sempre de perguntar a eles
não guardo nunca o nome dos passarinhos)
pousou na minha varanda improvável de
Copacabana
me viu e fugiu em seguida
ele aprendeu que o bicho homem não merece
confiança.
Sei que não tem nada a ver
mas me lembrei do Viterbo, um advogado gaúcho,
preso comigo na primeira prisão política em
1964.
Viterbo tinha visão e pressentimento :
quando saiu da prisão se matou dias depois.
Virou passarinho para me alegrar nas manhãs
sombrias de Copacabana.
Tenho uma pena enorme
destas santinhas
virgens a quem ninguém recorre
que prece nenhuma recebem
de cura ou sofrimento de amor.
Virgens sem nome, sem prestígio
sem marketing
por quem pessoa alguma acende velas
e vagam solitárias pelo céu.
Quem sabe marias sem sobrenome, sem altar,
virgens desocupadas,
não encontra uma de vocês
a nórdica que me abandonou sem mais nem menos
e deixou para sempre cravados em mim
aqueles olhos azuis de indiferença e desprezo.
Fico pensando
quem aprecia hoje um poema ou a imitação
desmaiada dele
A poesia acabou, está acabando ou vai
acabar.
Não há nenhuma pista
sinal nenhum.
Nas livrarias, meia dúzia de livros dos
mesmos autores
escondidos no fundo que ninguém vê.
Não há sinal nenhum
nenhuma pista reveladora
nenhum toco de cigarro
para denunciar o DNA.
A poesia acabou em mim
tudo morreu em mim quando partiste.
Quando tive aquela trombose tudo morreu em
mim
as escavadeiras da prefeitura levaram o
entulho.
Me afundei no abismo do meu cérebro.
Não sobrou nada de mim
verdade que fiquei mais leve
sem dores, fantasmas, culpas
tudo morreu em mim quando partiste.
Sou esta voz
quase muda
inaudível
sou este sonho
o sonho esquecido quando acordo
sou esta palavra indicível
que te adora
que te adora
e me persegue sem alcançar.
Sou este sonho
que começa nas lonjuras
em que te escondeste de mim.
Não guardo rancor
nem ressentimento
convivo bem com o claro e o escuro
negrejar e branquear
é a mesmo coisa sem sentido para mim.
Viajei pouco, mas conheci o essencial do mundo
tive bem poucos amigos
mas os poucos pra mim é multidão.
Adoro o falar baixinho
o sussurro, a surdina, o murmúrio
o falar cochichando me seduz
o que me importa no final das contas
é repetir sempre a mesma pergunta
que fiz eu de mim ?
Este meu jeito
inescondível
de ser triste
esta vontade de viajar para bem longe
junto estes livros ainda não lidos.
Esta vontade esquisita de gritar
e acordar as gentes para um mundo possível de harmonia.
Meus sonhos mais recônditos
estes ventos soluçantes de setembro
trazem de volta teu retrato
em que ainda reconheço
sinais enigmáticos
de sonho e de esperança.
Cometi muitos erros, é verdade,
erros banais, alguns,
outros nem tanto
mas que três aves marias, três padres nossos
no meu tempo resolviam o problema.
Será, minha santinha padroeira
que errei mesmo tanto assim
ou nasci no mundo errado ?
Dizem que vão me presentear
um cachorro.
Sei muito bem
os cães costumam ser fiéis
o que é uma coisa cada vez mais rara
em nossa vã humanidade :
os cães respeitam seus donos acima de tudo,
não debocham, não gargalham.
Não têm vergonha que o dono esteja gagá
e caminhe na rua como se estivesse bêbado.
Me impõem uma condição :
que eu leve meu cão a passear todas as manhãs.
Veja bem, isto é impossível :
o cão é que vai me levar no passeio matinal.
Já não posso mais.
Se duvidarem, como vão as coisas,
é capaz de eu parar em cada poste
para marcar o lugar da volta.
Eu queria pelo menos
conhecer outra gente de lugares a que não fui
Beijar outro lábios
sentir pelo menos o perfume de outros corpos
pelos menos pegar as mãos que me amparassem
e aceitassem a minha mão vazia
pelo menos alguém que me chamasse irmão
sem ter comigo distante parentesco
pelo menos olhar fundo dos seus olhos
(azuis, de preferência)
para conhecer os seus segredos
pelo menos alguém que me amparasse
no meu andar claudicante
pelo menos alguém que fingisse sentir a mesma
dor que sinto
e chorasse comigo a mesma dor que me consome.
Estou só
irremediavelmente só
sem caminho interditado de onde vim
estou só
sem vontade de voltar.
Quero ir pra longe
e o longe não existe, amada.
E o diabo destes olhos azuis
molhados do mar nórdico
cravados em mim, como uma maldição,
que teimam sorrir se sorrio
e choram sempre quando choro
toda vez com saudades de ti.
Todo avô é um maníaco
todo avô
tem a mania de dar conselho.
Ninguém escuta, ninguém segue
mas importa pouco.
Meu conselho
é que prestem muita atenção :
a vida é uma só
e muito breve.
O tempo que temos para fazer UMA pessoa feliz
é fugaz
quando a gente percebe
já passou a chance.
Eu, por exemplo, sou um azarado.
Entrei na vida na contramão.
Tenho mania de grandeza, confesso,
almejo ser
por aclamação
(tem o poeta municipal, o estadual e o grandes poetas
nacionais)
considerado o poeta da minha quadra
(mesmo que não seja poeta).
Hoje bem cedo
saí para a caminhada domingueira.
Encontrei meu amigo Marquinhos
maluco - beleza
que dirige o trânsito aqui
mandando seguir os ônibus que devem seguir
e parar os que precisam parar
mesmo que os sinais digam uma ou outra coisa.
Divido com Marquinhos, as gentes e os cães
o poder absoluto de mandar nesta rua de Copacabana.
A rua, os ônibus, as gentes existem porque nós deixamos :
o Marquinhos, eu, os cães
e os sonhos também.
Eu queria tanto
tanto mesmo de verdade
envelhecer contigo.
Que tu amparasses
meu caminhar inseguro
quando ando na quadra da minha rua.
Que tu abrigasses com zelo
minhas tonturas senis
que me dissesses o nome das coisas e das
pessoas
que a cada momento esqueço.
Eu queria tanto envelhecer contigo
e lembrar sempre os mesmos versos
e compor contigo sempre o mesmo poema
que repito e esqueço sempre.
Eu queria tanto que ouvisses a mesma história
da minha juventude
que não tenho ninguém para escutar
e ninguém para acreditar.
Eu queria tanto.
"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino
dos céus" (Mateus,5.3).
Azarado, tudo bem,
reconheço meus pecados,
mas pobre de espírito jamais.
No reino dos céus
até que eu topava ir
(chato deve ser aquela cantoria o dia todo),
mas jardins floridos e perfumados,
bem cuidados por jardineiros afetuosos, isto
me atrai.
Mas pobre de espírito, tô fora.
Toda esta gente que me enganou
me humilhou e gargalhou na minha cara,
sinto dizer que eu sabia de tudo, todos os
detalhes macabros
da sua sordidez, eu reconhecia
todos os detalhes.
Explico : arrisquei ser feliz apenas ;
não fui enganado.
Louvo todas as despedidas
também aquelas em que chorei
louvo os abraços de nunca mais
e os beijos de separação,
também aqueles que me humilharam
ofenderam e marcaram a fogo minha vida inteira.
Bendigo todas as despedidas
mesmo aquelas que não presenciei
o balançar tímido de mãos
que me deixou inerte
sem saber sorrir ou chorar.
Bendigo a cidade inencontrável
para onde foi (norte da Europa ?)
quem me deixou sem teto, caminho, lugar e jeito
para continuar vivendo,
onde sempre é outono e inverno.
Sou cisco
lasca
fagulha que definha e se apaga
fogueira, labareda, lume,
sombra apagada,
projeto esquecido de um museu, quem sabe,
teatro de mil espetáculos
dança, tragédia, comédia
atirador ensandecido
matando sonhos de gente jovem
que ainda não aprendeu a odiar.
Sou cisco, lixo, detrito, poeira
nenhum deus se preocupa se rio, se choro.
Sou cisma, sonho, fantasia
simplesmente isto.
Podem rir
debochados, zombeteiros, escarnecidos,
gargalhar a bandeiras despregadas.
a hora é de vocês
eu vos respeito.
Riam sem pudor
que a minha hora está chegando.
Vou indo em silêncio, devagar,
me despeço, ouvindo de vocês
as últimas homenagens.