terça-feira, 31 de julho de 2018

POEMA DE VERDADE


                                                                                   PARA RUI HADDAD


Prometo que um dia

ainda faço um poema de verdade

de tanto me esforçar

tanto espremer meu bestunto

de tanto procurar nas profundezas do mar

na lonjura da mata fechada.

Um dia descubro um poema de verdade

e todo mundo vai dizer


que é um poema copiado do Drummond, do Bandeira

ou se for demais

um poema psicografado do Mário Quintana.

(Será a minha glória).

segunda-feira, 30 de julho de 2018

MAR DA DINAMARCA

No fundo da minha casa

pátio cheio de árvores, plantas e flores

no fundo passava um riacho

Exagero !... o riacho não era mais que um córrego !


onde eu, criança, colocava meus barquinhos de papel

(eles atravessavam muitas vezes e sumiam no pátio do vizinho).




Nunca soube onde meus barcos se perdiam...

Só hoje descobri que eles afundaram no mar do Norte

onde todos os sonhos de amor

e os barquinhos desaparecem.

MINHA NAMORADA

Minha namorada mora perto

juntinho de mim

falo baixinho, ela me ouve

quando choro ela vem me consolar

quando rio, ri comigo

minha namorada mora perto

quando durmo ela me cuida

e quando alvorece

tomo o café que ela prepara

minha namorada é conivente

é cúmplice, coadjutora, corrige os erros meus


se alimenta dos mesmos sonhos que tenho

minha namorada mora junto

se esconde, feliz, onde me escondo.

O QUE ESCREVO

O que escrevo, tão pobre,

é só às brinca

minto com sinceridade

sou sincero até quando minto

pra me divertir.

Mesmo a dor que sinto é mentirinha

o amor que experimento de verdade já morreu faz tempo

de falência múltipla.

Escolho as palavras que me entendem

não aproveito qualquer palavra distraída que me escolha.

Sou mago às vezes,

alguém que deu corda no cansado coração.




Meu brinquedo é ressuscitar amores mortos

que fingem bater dentro do peito.

domingo, 29 de julho de 2018

MENTIRA E FALSIDADE

Vou cantar

dançar um tango argentino

tocar flauta  na orquestra sinfônica

bailar clássico no Municipal

visitar o jardim botânico

vou ao Corcovado tirar selfies

vou brincar com o macaco no zoológico.




Tudo mentira e falsidade.

Vou ficar escondido em casa, sozinho,

sem dizer palavra. Tudo lorota

para que a gente pense que estou feliz.




Feliz porque é a obrigação das gentes,


nesta época de Natal e chegada do ano novo.

Com mentiras novas

para continuar vivendo

os poucos meses que me sobram.

AQUELE PRMEIRO BEIJO

Queria te olhar devagarinho,

não dizer nada, dissimulado,

mudo, de mansinho,

pousar minha mão sobre a tua mão

descobrir na tua boca


onde escondeste aquele primeiro beijo

que, um dia, faz tanto tempo, te roubei.

PARADOXO

Vivo de magia, amada,

vivo aqui e ali sem saber bem o que quero


vivo de coisas impossíveis :

viver muito longe daqui

e ter você enfim perto de mim.




Um dia eu consigo

e morrerei de espanto.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

NATAL

Pode ser que eu esteja enganado

(não lembro bem de certas coisas)

nunca tive ceia de Natal em casa.

Por um tempo, ainda bem pequeno,

íamos à casa de um conhecido

que se vestia de Papai Noel

e entregava presentes pra gurizada.




Até que um dia de inverno

(disto lembro muito bem)

Papai Noel se matou. Daí eu decidi que nunca me mataria.

Daí ficou também a questão não resolvida pra mim :




Morreu o Papai Noel

ou o NATAL morreu ? 

terça-feira, 24 de julho de 2018

MANEIRA DE VIVER

Menino, a gente costumava jogar
às brinca ou às vera
conforme a disputa valia alguma coisa ou não.


Hoje tenho certeza que vivi às brinca
não fiz nada de interessante.
Outra vez (não creio em outra vez)
Viverei às vera
ainda que todo o mundo pense que estou brincando.

DECEPÇAO

Já morri duas vezes

por piedade

ninguém acredita

(que decepção é a morte !...)

Não ouvi anjos cantando

nem harpas do Senhor soando.

Tampouco senti cheiro de carne queimada

que decepção !

Na porta do céu bati com insistência

e me informaram que Ele estava de férias, descansando...

Como no sétimo dia.

Achei justo, são milhões fazendo a Ele sempre o mesmo pedido !

Já morri duas vezes

prometo que na terceira não falho!...

O QUE NÃO SOU

                                                                                     Para NEY FEIJÓ



Não sou

nem quero ser escritor

muito menos que me julguem poeta.

Nada contra.




Imaginem a mim numa fotografia e atrás de mim uma biblioteca de livros que nunca li

Logo eu que só li Mário Quintana

que me ensinou a escrever simples

e amar baixinho.

TE QUIS COMO NINGUÉM TE QUIS

Te quis

como ninguém te quis

não te esqueço quando todos te esqueceram.

Não sei porquê

não sei quanto durou

me dói ainda a mágoa que senti

Não te deixei, não me deixaste

todos pararam de chorar

e choro ainda bestamente

Te mudaste pra longe

onde faz frio sempre

a noite é eterna

e faz escuro o ano todo.

Nem sequer lembras de mim

mas eu te quis

como quem mais te quis.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

MELHOR SONHO QUE SONHEI

                                Para João Paulo

Invento desculpas

(estava mudando o mundo)

que nem a mim convencem.

Queria que me amasses

não pelo pouco que te dei,


mas me amasses fundamente

pelo tanto que eu não te dei.

Daria hoje o pouco que da minha vida resta

para acompanhar teu primeiro passo

sentir o encanto do primeiro riso colorir teu rosto

queria ir contigo te levando pela mão

no primeiro dia da escola

queria bater palmas na tua formatura

(e estive ausente)

ocupado em jogar  na fogueira de mim mesmo


o melhor sonho que sonhei pra mim.

domingo, 22 de julho de 2018

O RELÓGIO

Da minha antiga casa
na cidade pequena em que vivi
da casa em que meus pais viveram também, não trouxe nada.
Trouxe comigo apenas um relógio
daqueles enormes relógios dos avós que batem as horas inteiras
e indicam também o quarto de horas.



Às vezes, de madrugada, meio dormido,
escuto passos no corredor e ouço o velho relógio tocar as horas.
É meu pai que, pé ante pé,
dá corda no relógio
e o tempo anda pra trás
como um milagre.

MILAGRE

Lembras que a gente

começou de mentirinha

um olhar, um sorriso enigmático

uma palavra boba atirada ao vento

coisas tolas, sem graça

querendo e não querendo.

De repente, como fazem os pesquisadores

ao acaso, ao acaso mesmo,


se fez o milagre, como a  multiplicação dos pães,


descobrimos esta coisa nova,  esquisita

chamada amor

rosa que floresceu

e  não morreu jamais.

sábado, 21 de julho de 2018

FOI ASSIM

Foi assim

tudo começou aos poucos

começou devagar, sem que eu sentisse

no  início esqueci as chaves

o nome dos amigos

o nome do porteiro

a hora dos remédios, esqueci para onde eu ia

e o caminho de casa

das mulheres que amei e me deixaram

e me esqueci que quase morri de paixão por elas.





Agora estou completo : esqueci de mim.

CONFISSÃO

Cometi muitos erros, é verdade
erros banais, alguns,
outros nem tanto
mas que três aves marias, três padres nossos
no meu tempo resolviam o problema.


Será, minha santinha padroeira,
que errei mesmo tanto assim
ou nasci no mundo errado ?

PENSO ASSIM COMO ÉS

Penso-te
flor, mar, carinho, afeto
Penso-te primeiros passos, convalescênça
sorriso de criança
Penso-te
infância, inocência
festa no colégio.
Penso-te aplauso, sorriso.
Penso-te primeiro lugar no vestibular.

Penso-te muito mais que isso :
amor que não morre nunca.

MEU TEMPO

Sinto que passou meu tempo

tanto faz hoje que chova

faça escuro como na Finlândia

que caia neve igual na Dinamarca, onde te procurei.




Sozinho, como sempre, olho minha gata

melhor dizer que nos olhamos

e ela entende


que carrego a tristeza do tamanho do mundo.

Ela compreende e se encosta em mim

e a vida parece que começa naquela hora.




Passou meu tempo ela entende


quando me importava ser feliz ou infeliz.

terça-feira, 17 de julho de 2018

CANSAÇO

É ter sede sem ter água
é ter fome sem ter pão.


É esperar no cais o navio que não chega nunca
dizer adeus a fantasmas que não se importam comigo.
É a ânsia de contar todos os segredos
e permanecer, sob tortura, mudo.


Cansaço que me consome é esquecer o nome da mulher que me esqueci
e que ela também, muito antes, com certeza, me esqueceu.

QUERO IR CONTIGO

Quero ir contigo
sempre
não para ser o teu caminho, a tua luz, a tua glória
Quero ir contigo, silencioso, mudo até, não para cantar teus feitos


Quero ser apenas
tão somente a tua sombra
que se desfaz quando a noite desce.

FOI ESTA TRISTEZA

Foi esta tristeza

esta amargura funda

de tão longe vindas

Foi esta ilusão que me consome

e me pretendia melhor

que hoje me fez assim, pequeno e inútil.

Daí, confuso, entre grandeza e pequenezes

vivo estas  medidas desiguais que me matam de dia


e ressuscitam à noite

como o judeu morto na cruz, abandonado e só.

NOVA LEI

Alguém bem intencionado

deveria fazer uma lei com um único parágrafo

"fica terminantemente proibido fazer poesia quem poeta não seja".

(São tantas as leis, algumas obedecidas, outras mil, esquecidas).




Mas onde, amada,

iria eu derramar meu pranto

sufocar meu desencanto

onde, amada, iria enterrar meu sonho

onde, amada, iria eu escrever sempre o mesmo poema ?

sábado, 14 de julho de 2018

COISAS QUE APRENDEMOS JUNTOS

E rimos muito disto

te ensinei o nome dos ossos do corpo humano

te ensinei o nome de cada osso da minha mão direita que apertava a tua mão


e rimos muito disto

porque não querias largar a minha mão.

Te ensinei os poemas do Bandeira, do Drummond

e te rias muito do som estranho das palavras

diferentes da tua língua.

Te mostrei encantamento do Quintana e choraste

choramos muito disto.





E tu me ensinaste, quantas vezes !...

a te esquecer

e eu mau aluno não aprendi


e quantas vezes, sozinho, chorei por isso.

O QUE EU QUERO

Não, amiga,

não quero ser livro

manchete, revista, jornal,

inefável Tv.

Quero ser assim como sou

pequenininho, ignoto

anônimo, obscuro

quero ser zero, não milhões.

Não quero, por favor, ser anúncio luminoso

enfeite, adorno, ornato

quero ser apenas

palavra sussurrada

que ninguém ouça, nem repita.

HISTÓRIAS DO MEU MUNDO

Um dia, breve, vou contar a história do mundo,

a minha história,

o meu mundo pobre

sem graça

sem montanhas geladas

cordilheiras mágicas ao amanhecer

sem vulcões ameaçadores, sem tempestades, tsunamis

mundo sem glamour, filme japonês sem legenda.

Eu fugi do mundo

do meu mundo sem aurora boreal

sem sol da meia noite na Noruega,


sem cordilheira dos Andes coberta de neve

sem os dolomitas

sem Veneza, seus barcos e suas canções

sem Paris no bateau mouche pelo Sena.

Na surdina


pé ante pé, sem olhar para trás, eu fugi como um cão

sem dono no mundo. Do meu mundo.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

QUANDO PARTISTE

Por favor,

repare no meu jeito desigual

Repare no meu olhar perdido

ondulante e vago

repare no meu silêncio

soturno e sepulcral

repare no jeito que sorrio

sem graça.

Perdoe

eu não era assim quando partiste

sem dizer adeus.

NINHOS VAZIOS

Se eu fizesse análise
meu analista riria`a toa


Tenho sonhado


sempre o mesmo sonho

(que falta de imaginação !
Freud explica
Ele explica tudo...)

Sonho sempre

com ninhos vazios.




E me acordo banhado em lágrimas !...

quarta-feira, 11 de julho de 2018

SE ME CHAMAREM AGORA

Anoitece

se me chamarem neste instante


escuto na solidão

sonatas de Wolfgang Mozart

tudo parece em paz

não imagino melhor momento

(as pessoas que amo em paz).




Só me preocupo

não é brinquedo


se me chamarem neste instante

quem cuidará da minha gatinha vira-lata

(aqui ao lado, me cuidando)

como eu cuido


se me chamarem neste instante.

MEU TEMPO É OUTRO

Sou desse tempo

tão distante

da cartinha,

do bilhete e do recado

do telefone

do conversar baixinho e junto

sou de outro tempo

de olhar no teu olhar

e de tudo adivinhar

sou do tempo de dar rosas

de fazer versos sem sentido

sou do tempo de morrer de amor




e não me reconheço mais.

domingo, 8 de julho de 2018

CANÇÕES DO NUNCA

Devia me envergonhar

de escrever sempre a mesma coisa ...


mas acaso estes sabiás que cantam junto à minha varanda

em Copacabana

se constrangem de cantar sempre o mesmo canto ?

Estes sabiás cantando, cantam este milagre

de encantar a gente na frieza do asfalto

eu insistindo sempre na mesma coisa

acabo um dia fazendo um poema

que a gente distraída vai mal comparar a Quintana,

passarinho das canções do nunca

que se fizeram eternas.

METADE - METADE

Eu te gosto assim como és

metade - metade, arisca e rebelde

doce e carinhosa

sou como tu, metade luz, metade escuridão

amigo e desconfiado.

Me encanta seres assim, metade nobreza, metade marginal

vinda de castelos às vezes


às vezes de pardieiros mal construídos.

Eu te amo, metade - metade

assim como és, metade verdadeira, metade fingidora

gosto quando me mordes e quando me acaricias

(não te quero inteira e definida).

Me cativa o teu segredo quando em mim te recostas

e dormes sossegada no meu colo

sonhando teus sonhos iguais aos meus

gosto muito assim como és


minha linda gatinha sialata

metade siamesa, metade vira-lata.

sábado, 7 de julho de 2018

NO CÉU

Era bom sujeito o Edmundo


meu companheiro de quarto na vida universitária.

Como todo gordo que se preza

morreu de repente, como todo gordo boa gente.

Só tinha um defeito :

todo sete de setembro levantava cedo

para assistir à parada militar.




Imagino que no céu

haja parada militar todo dia antes da missa

e meu amigo deve levantar cedinho

para pegar o melhor lugar

ao lado dos anjinhos

e ver a banda celestial passar.

CANTO INÚTIL

Inútil, canto inútil

de mim mesmo

sonho, utopia, devaneio

um mundo que imaginei

uma vida inteira

um futuro pra nós dois.

Tomar o café da manhã olhando nos teus olhos

só isso, onde vive o entendimento das coisas.

E ficarás conversando comigo

olhando longamente nos meus olhos

como se fosse a primeira vez.

É simples, disto é feita a vida.

Escrevo sempre o mesmo poema

em seguida vou dormir

quando chegar a noite


pensando que é longe estar contigo

e te quero mais ainda

porque não sabes de nada

que disto é feita vida.




















quarta-feira, 4 de julho de 2018

PRESENTE

Dizem que vão me presentear
um cachorro.
Sei muito bem
os cães costumam ser fiéis
o que é uma coisa cada vez mais rara
em nossa vã humanidade :

os cães respeitam seus donos acima de tudo,

não debocham, não gargalham.
Não têm vergonha que o dono esteja gagá
e caminhe na rua como se estivesse bêbado.
Me impõem uma condição :
que eu leve meu cão a passear todas as manhãs.


Veja bem, isto é impossível :
o cão é que vai me levar no passeio matinal.
Já não posso mais.
Se duvidarem, como vão as coisas,
é capaz de eu parar em cada poste
para marcar o lugar da volta.

ROTINA

Nossa rotina,

como toda rotina, é besta.

Ficamos toda manhã, eu e minha gata sialata,

metade siamesa, metade vira-lata,

(amo mais seu lado desvalido)

ouvindo Corelli e suas belas composições para violino.

Minto para ela que é Brahms

o favorito dela.

Desconfio que ela sabe que estou mentindo

finge que é enganada

e diante da vaziez do mundo que me sufoca

imagina que na minha idade

mereço (afinal) ser feliz.

NÃO TENHO NINGUÉM

Não tenho ninguém
desta gente boa
pra olhar por mim
hoje não existo mais
fazer os versos mais lindos do universo
quem me dera !...
Sou covarde, minta pra ela, por favor,
sou filho do desterro, do quebranto,
do quebranto e da incerteza,
das saudades, dos fracassos
de tudo que eu tinha
e de tudo que eu perdi.
Minta pra ela, por favor,
que eu viajo
e volto sem demora
pro futuro de nós dois. 

RETRATO

Arquiteto de mim mesmo

me decoro

me arranjo

me planejo

me construo

me enfeito

me ilumino.




E continuo sendo trevas

solidão, incêndio

e malquerer.

domingo, 1 de julho de 2018

OLHOS AZUIS

Estou só
irremediavelmente só
sem caminho interditado de onde vim
estou só
sem vontade de voltar.
Quero ir pra longe
e o longe não existe, amada.


E o diabo destes olhos azuis
molhados do mar nórdico
cravados em mim, como uma maldição,
que teimam sorrir se sorrio
e choram sempre quando choro

toda vez com saudades de ti.