PARA RUI HADDAD
Prometo que um dia
ainda faço um poema de verdade
de tanto me esforçar
tanto espremer meu bestunto
de tanto procurar nas profundezas do mar
na lonjura da mata fechada.
Um dia descubro um poema de verdade
e todo mundo vai dizer
que é um poema copiado do Drummond, do Bandeira
ou se for demais
um poema psicografado do Mário Quintana.
(Será a minha glória).
No fundo da minha casa
pátio cheio de árvores, plantas e flores
no fundo passava um riacho
Exagero !... o riacho não era mais que um córrego !
onde eu, criança, colocava meus barquinhos de papel
(eles atravessavam muitas vezes e sumiam no pátio do
vizinho).
Nunca soube onde meus barcos se perdiam...
Só hoje descobri que eles afundaram no mar do Norte
onde todos os sonhos de amor
e os barquinhos desaparecem.
Minha namorada mora perto
juntinho de mim
falo baixinho, ela me ouve
quando choro ela vem me consolar
quando rio, ri comigo
minha namorada mora perto
quando durmo ela me cuida
e quando alvorece
tomo o café que ela prepara
minha namorada é conivente
é cúmplice, coadjutora, corrige os erros meus
se alimenta dos mesmos sonhos que tenho
minha namorada mora junto
se esconde, feliz, onde me escondo.
O que escrevo, tão pobre,
é só às brinca
minto com sinceridade
sou sincero até quando minto
pra me divertir.
Mesmo a dor que sinto é mentirinha
o amor que experimento de verdade já morreu faz tempo
de falência múltipla.
Escolho as palavras que me entendem
não aproveito qualquer palavra distraída que me escolha.
Sou mago às vezes,
alguém que deu corda no cansado coração.
Meu brinquedo é ressuscitar amores mortos
que fingem bater dentro do peito.
Vou cantar
dançar um tango argentino
tocar flauta na orquestra sinfônica
bailar clássico no Municipal
visitar o jardim botânico
vou ao Corcovado tirar selfies
vou brincar com o macaco no zoológico.
Tudo mentira e falsidade.
Vou ficar escondido em casa, sozinho,
sem dizer palavra. Tudo lorota
para que a gente pense que estou feliz.
Feliz porque é a obrigação das gentes,
nesta época de Natal e chegada do ano novo.
Com mentiras novas
para continuar vivendo
os poucos meses que me sobram.
Queria te olhar devagarinho,
não dizer nada, dissimulado,
mudo, de mansinho,
pousar minha mão sobre a tua mão
descobrir na tua boca
onde escondeste aquele primeiro beijo
que, um dia, faz tanto tempo, te roubei.
Vivo de magia, amada,
vivo aqui e ali sem saber bem o que quero
vivo de coisas impossíveis :
viver muito longe daqui
e ter você enfim perto de mim.
Um dia eu consigo
e morrerei de espanto.
Pode ser que eu esteja enganado
(não lembro bem de certas coisas)
nunca tive ceia de Natal em casa.
Por um tempo, ainda bem pequeno,
íamos à casa de um conhecido
que se vestia de Papai Noel
e entregava presentes pra gurizada.
Até que um dia de inverno
(disto lembro muito bem)
Papai Noel se matou. Daí eu decidi que nunca
me mataria.
Daí ficou também a questão não resolvida pra
mim :
Morreu o Papai Noel
ou o NATAL morreu ?
Menino, a gente costumava jogar
às brinca ou às vera
conforme a disputa valia alguma coisa ou não.
Hoje tenho certeza que vivi às brinca
não fiz nada de interessante.
Outra vez (não creio em outra vez)
Viverei às vera
ainda que todo o mundo pense que estou
brincando.
Já morri duas vezes
por piedade
ninguém acredita
(que decepção é a morte !...)
Não ouvi anjos cantando
nem harpas do Senhor soando.
Tampouco senti cheiro de carne queimada
que decepção !
Na porta do céu bati com insistência
e me informaram que Ele estava de férias, descansando...
Como no sétimo dia.
Achei justo, são milhões fazendo a Ele sempre o mesmo pedido
!
Já morri duas vezes
prometo que na terceira não falho!...
Para NEY FEIJÓ
Não sou
nem quero ser escritor
muito menos que me julguem poeta.
Nada contra.
Imaginem a mim numa fotografia e atrás de mim
uma biblioteca de livros que nunca li
Logo eu que só li Mário Quintana
que me ensinou a escrever simples
e amar baixinho.
Te quis
como ninguém te quis
não te esqueço quando todos te esqueceram.
Não sei porquê
não sei quanto durou
me dói ainda a mágoa que senti
Não te deixei, não me deixaste
todos pararam de chorar
e choro ainda bestamente
Te mudaste pra longe
onde faz frio sempre
a noite é eterna
e faz escuro o ano todo.
Nem sequer lembras de mim
mas eu te quis
como quem mais te quis.
Para João Paulo
Invento desculpas
(estava mudando o mundo)
que nem a mim convencem.
Queria que me amasses
não pelo pouco que te dei,
mas me amasses fundamente
pelo tanto que eu não te dei.
Daria hoje o pouco que da minha vida resta
para acompanhar teu primeiro passo
sentir o encanto do primeiro riso colorir teu rosto
queria ir contigo te levando pela mão
no primeiro dia da escola
queria bater palmas na tua formatura
(e estive ausente)
ocupado em jogar na fogueira de mim mesmo
o melhor sonho que sonhei pra mim.
Da minha antiga casa
na cidade pequena em que vivi
da casa em que meus pais viveram também, não trouxe nada.
Trouxe comigo apenas um relógio
daqueles enormes relógios dos avós que batem as horas inteiras
e indicam também o quarto de horas.
Às vezes, de madrugada, meio dormido,
escuto passos no corredor e ouço o velho relógio tocar as
horas.
É meu pai que, pé ante pé,
dá corda no relógio
e o tempo anda pra trás
como um milagre.
Lembras que a gente
começou de mentirinha
um olhar, um sorriso enigmático
uma palavra boba atirada ao vento
coisas tolas, sem graça
querendo e não querendo.
De repente, como fazem os pesquisadores
ao acaso, ao acaso mesmo,
se fez o milagre, como a multiplicação dos pães,
descobrimos esta coisa nova, esquisita
chamada amor
rosa que floresceu
e não morreu jamais.
Foi assim
tudo começou aos poucos
começou devagar, sem que eu sentisse
no início esqueci as chaves
o nome dos amigos
o nome do porteiro
a hora dos remédios, esqueci para onde eu ia
e o caminho de casa
das mulheres que amei e me deixaram
e me esqueci que quase morri de paixão por elas.
Agora estou completo : esqueci de mim.
Cometi muitos erros, é verdade
erros banais, alguns,
outros nem tanto
mas que três aves marias, três padres nossos
no meu tempo resolviam o problema.
Será, minha santinha padroeira,
que errei mesmo tanto assim
ou nasci no mundo errado ?
Penso-te
flor, mar, carinho, afeto
Penso-te primeiros passos, convalescênça
sorriso de criança
Penso-te
infância, inocência
festa no colégio.
Penso-te aplauso, sorriso.
Penso-te primeiro lugar no vestibular.
Penso-te muito mais que isso :
amor que não morre nunca.
Sinto que passou meu tempo
tanto faz hoje que chova
faça escuro como na Finlândia
que caia neve igual na Dinamarca, onde te
procurei.
Sozinho, como sempre, olho minha gata
melhor dizer que nos olhamos
e ela entende
que carrego a tristeza do tamanho do mundo.
Ela compreende e se encosta em mim
e a vida parece que começa naquela hora.
Passou meu tempo ela entende
quando me importava ser feliz ou infeliz.
É ter sede sem ter água
é ter fome sem ter pão.
É esperar no cais o navio que não chega
nunca
dizer adeus a fantasmas que não se importam
comigo.
É a ânsia de contar todos os segredos
e permanecer, sob tortura, mudo.
Cansaço que me consome é esquecer o nome da
mulher que me esqueci
e que ela também, muito antes, com certeza,
me esqueceu.
Quero ir contigo
sempre
não para ser o teu caminho, a tua luz, a tua
glória
Quero ir contigo, silencioso, mudo até, não
para cantar teus feitos
Quero ser apenas
tão somente a tua sombra
que se desfaz quando a noite desce.
Foi esta tristeza
esta amargura funda
de tão longe vindas
Foi esta ilusão que me consome
e me pretendia melhor
que hoje me fez assim, pequeno e inútil.
Daí, confuso, entre grandeza e pequenezes
vivo estas medidas desiguais que me matam de dia
e ressuscitam à noite
como o judeu morto na cruz, abandonado e só.
Alguém bem intencionado
deveria fazer uma lei com um único parágrafo
"fica terminantemente proibido fazer poesia quem poeta não
seja".
(São tantas as leis, algumas obedecidas, outras mil, esquecidas).
Mas onde, amada,
iria eu derramar meu pranto
sufocar meu desencanto
onde, amada, iria enterrar meu sonho
onde, amada, iria eu escrever sempre o mesmo poema ?
E rimos muito disto
te ensinei o nome dos ossos do corpo humano
te ensinei o nome de cada osso da minha mão
direita que apertava a tua mão
e rimos muito disto
porque não querias largar a minha mão.
Te ensinei os poemas do Bandeira, do Drummond
e te rias muito do som estranho das palavras
diferentes da tua língua.
Te mostrei encantamento do Quintana e choraste
choramos muito disto.
E tu me ensinaste, quantas vezes !...
a te esquecer
e eu mau aluno não aprendi
e quantas vezes, sozinho, chorei por isso.
Não, amiga,
não quero ser livro
manchete, revista, jornal,
inefável Tv.
Quero ser assim como sou
pequenininho, ignoto
anônimo, obscuro
quero ser zero, não milhões.
Não quero, por favor, ser anúncio luminoso
enfeite, adorno, ornato
quero ser apenas
palavra sussurrada
que ninguém ouça, nem repita.
Um dia, breve, vou contar a história do mundo,
a minha história,
o meu mundo pobre
sem graça
sem montanhas geladas
cordilheiras mágicas ao amanhecer
sem vulcões ameaçadores, sem tempestades,
tsunamis
mundo sem glamour, filme japonês sem legenda.
Eu fugi do mundo
do meu mundo sem aurora boreal
sem sol da meia noite na Noruega,
sem cordilheira dos Andes coberta de neve
sem os dolomitas
sem Veneza, seus barcos e suas canções
sem Paris no bateau mouche pelo Sena.
Na surdina
pé ante pé, sem olhar para trás, eu fugi como
um cão
sem dono no mundo. Do meu mundo.
Por favor,
repare no meu jeito desigual
Repare no meu olhar perdido
ondulante e vago
repare no meu silêncio
soturno e sepulcral
repare no jeito que sorrio
sem graça.
Perdoe
eu não era assim quando partiste
sem dizer adeus.
Se eu fizesse análise
meu analista riria`a toa
Tenho sonhado
sempre o mesmo sonho
(que falta de imaginação !
Freud explica
Ele explica tudo...)
Sonho sempre
com ninhos vazios.
E me acordo banhado em lágrimas !...
Anoitece
se me chamarem neste instante
escuto na solidão
sonatas de Wolfgang Mozart
tudo parece em paz
não imagino melhor momento
(as pessoas que amo em paz).
Só me preocupo
não é brinquedo
se me chamarem neste instante
quem cuidará da minha gatinha vira-lata
(aqui ao lado, me cuidando)
como eu cuido
se me chamarem neste instante.
Sou desse tempo
tão distante
da cartinha,
do bilhete e do recado
do telefone
do conversar baixinho e junto
sou de outro tempo
de olhar no teu olhar
e de tudo adivinhar
sou do tempo de dar rosas
de fazer versos sem sentido
sou do tempo de morrer de amor
e não me reconheço mais.
Devia me envergonhar
de escrever sempre a mesma coisa ...
mas acaso estes sabiás que cantam junto à minha varanda
em Copacabana
se constrangem de cantar sempre o mesmo canto ?
Estes sabiás cantando, cantam este milagre
de encantar a gente na frieza do asfalto
eu insistindo sempre na mesma coisa
acabo um dia fazendo um poema
que a gente distraída vai mal comparar a Quintana,
passarinho das canções do nunca
que se fizeram eternas.
Eu te gosto assim como és
metade - metade, arisca e rebelde
doce e carinhosa
sou como tu, metade luz, metade escuridão
amigo e desconfiado.
Me encanta seres assim, metade nobreza, metade marginal
vinda de castelos às vezes
às vezes de pardieiros mal construídos.
Eu te amo, metade - metade
assim como és, metade verdadeira, metade fingidora
gosto quando me mordes e quando me acaricias
(não te quero inteira e definida).
Me cativa o teu segredo quando em mim te recostas
e dormes sossegada no meu colo
sonhando teus sonhos iguais aos meus
gosto muito assim como és
minha linda gatinha sialata
metade siamesa, metade vira-lata.
Era bom sujeito o Edmundo
meu companheiro de quarto na vida universitária.
Como todo gordo que se preza
morreu de repente, como todo gordo boa gente.
Só tinha um defeito :
todo sete de setembro levantava cedo
para assistir à parada militar.
Imagino que no céu
haja parada militar todo dia antes da missa
e meu amigo deve levantar cedinho
para pegar o melhor lugar
ao lado dos anjinhos
e ver a banda celestial passar.
Inútil, canto inútil
de mim mesmo
sonho, utopia, devaneio
um mundo que imaginei
uma vida inteira
um futuro pra nós dois.
Tomar o café da manhã olhando nos teus olhos
só isso, onde vive o entendimento das coisas.
E ficarás conversando comigo
olhando longamente nos meus olhos
como se fosse a primeira vez.
É simples, disto é feita a vida.
Escrevo sempre o mesmo poema
em seguida vou dormir
quando chegar a noite
pensando que é longe estar contigo
e te quero mais ainda
porque não sabes de nada
que disto é feita vida.
Dizem que vão me presentear
um cachorro.
Sei muito bem
os cães costumam ser fiéis
o que é uma coisa cada vez mais rara
em nossa vã humanidade :
os cães respeitam seus donos acima de tudo,
não debocham, não gargalham.
Não têm vergonha que o dono esteja gagá
e caminhe na rua como se estivesse bêbado.
Me impõem uma condição :
que eu leve meu cão a passear todas as manhãs.
Veja bem, isto é impossível :
o cão é que vai me levar no passeio matinal.
Já não posso mais.
Se duvidarem, como vão as coisas,
é capaz de eu parar em cada poste
para marcar o lugar da volta.
Nossa rotina,
como toda rotina, é besta.
Ficamos toda manhã, eu e minha gata sialata,
metade siamesa, metade vira-lata,
(amo mais seu lado desvalido)
ouvindo Corelli e suas belas composições para violino.
Minto para ela que é Brahms
o favorito dela.
Desconfio que ela sabe que estou mentindo
finge que é enganada
e diante da vaziez do mundo que me sufoca
imagina que na minha idade
mereço (afinal) ser feliz.
Não tenho ninguém
desta gente boa
pra olhar por mim
hoje não existo mais
fazer os versos mais lindos do universo
quem me dera !...
Sou covarde, minta pra ela, por favor,
sou filho do desterro, do quebranto,
do quebranto e da incerteza,
das saudades, dos fracassos
de tudo que eu tinha
e de tudo que eu perdi.
Minta pra ela, por favor,
que eu viajo
e volto sem demora
pro futuro de nós dois.
Arquiteto de mim mesmo
me decoro
me arranjo
me planejo
me construo
me enfeito
me ilumino.
E continuo sendo trevas
solidão, incêndio
e malquerer.
Estou só
irremediavelmente só
sem caminho interditado de onde vim
estou só
sem vontade de voltar.
Quero ir pra longe
e o longe não existe, amada.
E o diabo destes olhos azuis
molhados do mar nórdico
cravados em mim, como uma maldição,
que teimam sorrir se sorrio
e choram sempre quando choro
toda vez com saudades de ti.